Ao vivo - Macau












AO VIVO – Memória de um processo


Cada uma destas imagens procura apresentar um momento único e frágil. Tentativas de colmatar uma inquietude, uma urgência de compreensão do visível circundante.

São imagens de vida quotidiana, de quotidiano, e de vida. Pretendem ser reflexos da realidade, muito próximos do que vemos, mas não exactamente.

São momentos de realidade forçada, encenações de um quotidiano atacado por uma singularidade subtil.

O desconcerto de um instante equivocado, um lugar que desaparece ao voltar tudo à normalidade. Este salto no decorrer dos acontecimentos rouba por um segundo o sentido primeiro da acção. Um lapso que secciona o movimento, congela uma ambiguidade e confunde a conclusão da narrativa.

Estes fragmentos fotográficos são transportados para o universo da imagem pintada com o propósito de alargar a duração da leitura. O espectador necessita mais tempo para reconhecer o código, o que convida a uma relação íntima e ao deleite da imagem.

Trata-se de uma mostra que apresenta um conjunto de obras seleccionadas dos últimos anos. Imagens que albergam elementos de um quotidiano contaminado pela minha cultura de origem e pelo país onde vivo actualmente, mais exactamente uma mistura entre Lisboa e Berlim. As pinturas são construidas sob códigos facilmente reconhecíveis dentro do âmbito português e europeu. Surgem de uma relação íntima com o que me rodeia, e apesar de jogarem com a noção de ambiguidade, procuram um equilibrio entre a minha subjectividade e a possibilidade de identificação do espectador.

Pregunto-me que efeitos terá o transporte intercontinental destas imagens. E interessa-me a possibilidade de multiplicação de sentidos e de aumento da amplitude de leituras que a sua apresentação a uma cultura essencialmente diferente pode provocar. Ou até que ponto a simplicidade de um quotidiano que tende a universalizar-se é um campo de comunicação por excelência, e permite o entendimento sensível, uma descoberta pelos sentidos.



Joana Lucas
Setembro de 2012